
O altar-mor e os altares colaterais da Igreja Velha Matriz (patrimônio tombado pelo Decreto nº 1348/97), hoje, em estado precário, com toda infra-estrutura de madeira comprometida e desfigurados dos originais devido as constantes intervenções sofridas ao longo do tempo, serão totalmente restaurados. Um convênio entre a prefeitura de Campo Belo e o BDMG (Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais) irá custear os serviços de recuperação.
Foi realizada a licitação, sendo vencedora a empresa Animo, de São João Del Rei / MG, que já deu início aos trabalhos.
O projeto para recuperação do interior da Igreja Velha Matriz teve início no ano de 2000, pelo então pároco José Erley,e, somente agora, o projeto foi concluído e aprovado.
São R$ 172.000,00 vindos do Fundo Nacional de Cultura e R$35.000,00 a contrapartida do município. A primeira parcela já foi repassada aos cofres municipais.
Carlos Magno de Araújo, um dos responsáveis pela empresa licitada, formado em história e com especialização em conservação e restauração pela UFMG, disse ter ficado surpreso ao fazer a avaliação dos altares. A primeira, segundo o restaurador, foi de ter encontrado sob várias camadas de tintas, a pintura original em estado razoável e disse acreditar ter ficado encoberta por mais de 100 anos, uma descoberta arqueológica, segundo o profissional. E, a segunda, por ainda existir na igreja Velha Matriz, os altares colaterais, que sempre tiveram o caráter provisório. Carlos disse acreditar que os altares se mantiveram talvez por falta de recursos na época para removê-los e, hoje, a presença desses altares é uma raridade e de uma importância primordial para a história da arte colonial mineira e para a cidade.

Os trabalhos de restauração, de acordo com o profissional, deverão deixar os altares com aproximadamente 90% de seu estado original. Alternativas são buscadas, em casos que o material utilizado na peça original já não seja mais encontrado.
Cerca de 7 profissionais, entre restauradores, carpinteiros, entalhador, estarão encarregados dos trabalhos que deverão durar cerca de dez meses. Carlos disse que mão-de-obra local também deverá ser utilizada. “A nossa intenção é trabalhar com gente da cidade também. Pelo menos uma pessoa da cidade eu gostaria que estivesse presente para acompanhar todo esse processo e ela ficar como guardiã. Ela vai entender qual o processo de restauro que foi utilizado, vai entender quais os materiais que a gente usa nos primeiros socorros, então acho que é bom ter uma pessoa da comunidade trabalhando com a gente”, pontuou.
Sobre a pintura que havia sobre o forro da Igreja (reveja ao lado a foto antiga com a pintura original), Carlos disse que não tem como fazer a recuperação, uma vez que, o forro foi removido e com isso, a sua pintura original.
A sugestão do profissional seria de se fazer uma nova pintura a partir da foto da original, mas isto não consta no projeto.
O prefeito Tarcísio Cambraia falou da busca de verbas para a realização do projeto de restauração e da importância para a comunidade da recuperação desse patrimônio histórico-cultural. “Há anos vimos perseguindo a possibilidade de obter recursos para concluir as obras de restauração da Igreja Velha Matriz de Campo Belo, um patrimônio histórico-cultural que representa um marco na arquitetura e na história de Campo Belo. Inicialmente tentamos conseguir estes recursos através de Furnas, pela Lei Rouanet, que permite a dedução de imposto de renda para empresas que investem na cultura, mas durante o longo período de negociações aconteceram mudanças na diretoria da empresa que impediram a conclusão do projeto. Agora, através da Secretaria de Estado da Cultura, foi possível conseguir recursos através do Banco BDMG. A intervenção do vice-prefeito Geovani de Sousa foi de fundamental importância para a conquista destes recursos”.

Padre José Júlio, da Paróquia do Senhor Bom Jesus, disse que com a restauração dos altares, além da volta das atividades e cerimônias religiosas, existe ainda a intenção de se criar um museu em uma das partes da Sacristia. O pároco disse que todo o trabalho de restauração realizado pela empresa licitada será acompanhado de perto por técnicos do IEPHA (Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico).
“A conquista desta restauração vem resgatar toda esta história que é a história de Campo Belo. A igreja hoje, mesmo com as obras inacabadas, recebe várias atividades, inclusive o batismo, que é realizado em todo primeiro domingo de cada mês. Mas a intenção da Paróquia Senhor Bom Jesus é reativar completamente a Igreja para a realização de várias cerimônias como de casamentos.”

Um pouco da história da Igreja Velha Matriz
Poucos dados foram encontrados sobre a construção da antiga Matriz de Campo Belo. A tradição local atribuiu a iniciativa de sua edificação à Sra. Catarina Parreira, personagem eminente na história do município. Alfredo Moreira Pinto, em seu dicionário de 1824, soma outros nomes: “ ... Manoel José de Castro, Manoel Martins Cardoso e diversos outros devotos...”
É certo, portanto que a Matriz foi construída pela iniciativa dos moradores da localidade, como comprova a provisão datada de 1783, na qual se concede a licença para sua edificação.
Assim, as obras da Matriz se iniciaram em torno dos anos de 1783 e 1784, se estendendo presumivelmente por todo o último quartel do século XVIII. Em 1808 era ali enterrado o seu primeiro vigário, o Padre Jerônimo da Fonseca Raimundo.
Em 1818, é criada a freguesia do Senhor Bom Jesus de Campo Belo. Cinco anos depois (1825), recebe a visita do Bispo D. Frei José da Santíssima Trindade, que assim descreveu o local e a edificação: “A Igreja Matriz he toda pedra dentro de hum Adro todo fechado e agradável como também o Arraial... se pode fazer ainda mais agradável com mais edifícios. Tem três altares pequenos,em madeira com Pia Baptismal de pedra e vazos dos Santos Olleos de vidro...”
Sua arquitetura adotou o modelo de arquitetura religiosa em voga na época, o neoclássico. O partido, em cruz, é composto por quatro pilastras laterais, em secção retangular. Divide-se em nave, corredores laterais encimados por tribunas, capelas laterais, sacristia aos fundos de secção circular e capela-mor com tribunas. O portal central, em forma de pórtico, ladeada por duas janelas laterais com guarda corpos em balustres e um ósculo central em forma de sino. Todos estes elementos são emoldurados em pedra e decorados nas partes suspensas. Nas laterais, duas torres redondas, com acabamentos superiores, em forma de sino invertido. A torre à direita dá acesso ao coro e aos sinos. A cobertura em duas águas, em telha curva, com beiral em cimalha decantaria. As torres tem cobertura em cúpulas de alvenaria. Um segundo telhamento compõe as capelas laterais.
A nave principal apresenta forro em abóbada, com tabulado corrido e pintura em perspectiva. Ao fundo, suspenso,o coro, com balaustrada de madeira e na parte inferior apresenta pintura diferenciada da nave. Quatro portas dão acesso as capelas laterais. Termina a nave com dois altares colaterais, em chanfro e arco cruzeiro em pedra, divisando com capela-mor.
Fonte: Livros “Velharias” e “A Princesa do Oeste - Campo Belo e sua memória
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